quarta-feira, 30 de maio de 2012

A vaca, o monge e o penhasco

Era uma vez... Não, essa história não começa bem assim.Conta uma parábola oriental que um mestre e um discípulo peregrinavam pelo interior de um país bem pobre, numa vizinhança erma, com vegetação muito hostil, para semear a palavra de seu Deus, quando avistaram uma humilde choupana onde sobrevivia um casal e sua numerosa família. 
Digo que sobreviviam porque todos eram alimentados exclusivamente pela produção de leite de uma única vaca. O alimento era usado no consumo doméstico, sendo todo o excedente trocado por grãos na aldeia mais próxima, que ficava a cerca de cinco horas de caminhada.
Apesar da evidente pobreza, o mestre e o discípulo foram gentilmente acolhidos pela família por três dias. 
Algumas horas depois de partirem, quando o sol já se deitava na estrada, o mestre disse ao discípulo que voltasse ao local, às escondidas, e empurrasse a vaca do alto do penhasco onde ela costumava pastar. 
O discípulo, assustado, argumentou que isso seria como a morte para aquelas pessoas, que dependiam do animal para seu sustento. Mesmo assim, o mestre insistiu: 
“Você tem razão. Jogue a vaca do penhasco”.
Depois de debater longamente com o mestre, mesmo sentindo uma enorme culpa, o rapaz se conformou e foi até a beira do penhasco, de onde empurrou a vaca. 
Anos mais tarde, quando os dois passavam pelas proximidades de onde ficava o casebre, o discípulo pensou em visitar a família e pedir perdão por ter tão covardemente assassinado a vaca, mas nada disse ao mestre.
Ao chegar à beira da estrada, ele não avistou a choupana, mas uma construção nova e confortável. As pessoas trabalhavam limpas e bem vestidas, num ambiente de progresso evidente. 
O rapaz se aproximou então e perguntou se saberiam informar onde estavam os moradores da pobre casinha que ali havia. Um dos homens respondeu: “Somos nós“.
Sem nada compreender, o discípulo insistiu: “Não, refiro-me àquelas pessoas pobres que aqui viviam”.
“Somos nós”, respondeu o homem novamente.
Diante da profunda e positiva transformação, o discípulo perguntou o que havia acontecido.
“Há muitos anos atrás, numa noite terrível, um acidente matou nossa única vaca e ficamos sem nossa fonte de sustento. Não tivemos alternativa além de buscar trabalho. Com isso, descobrimos nossas próprias capacidades e as potencializamos. O que você vê é o resultado daquela fatalidade”, ponderou o homem.

Moral da história:
O mestre pode saber além da percepção do que está à sua frente enquanto o discípulo nada pode ver ainda, a não ser o que está evidente. O rapaz viu apenas o infortúnio imediato, que era transitório. 

Ou seja:
Se você anda acompanhado de pessoas muito, muito sábias, pode se pegar tomando atitudes inexplicáveis e acabar obtendo resultados surpreendentes.
Se você e sua família dependem exclusivamente de uma fonte de sustento, está na hora de começar a pensar em diversificar.
Se você é uma vaca, nunca paste na beira de um penhasco.



P.S. Conclusão do meu guru espiritual: O discípulo aprendeu, o mestre ensinou, a família prosperou. Todo mundo se deu bem, menos a vaca, que era a única que produzia alguma coisa. 

*Livre adaptação de Simone Schettino

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