quarta-feira, 6 de junho de 2012


Para meu amigo Camus (Porque depressão, no dos outros, é refresco)

Sobre os rituais...

Eu decidi desbanalizar a minha vida.Seguir o caminho contrário de todas as pessoas, que correm atrás de construir uma rotina para depois viver querendo escapar dela.Decidi emoldurar as coisas. Enfeitar. Então enchi tudo em volta de mim de coisas bonitas. Cheiros gostosos. Cores.Símbolos. Sons. Sons são muito importantes. Não consigo mais imaginar minha vida sem trilha sonora.Pense nos melhores filmes que você já viu. O que faz vc se lembrar mais rápido da cena tão especial? A trilha, certo? Então.
Também não saio mais da cama sem me espreguiçar. Aprendi com meus dois gatos. O dia sempre começa melhor se temos consciência de nosso espaço.
Não tomo café da manhã. Não gosto. Parei de me obrigar. Aliás, parei de me obrigar definitivamente.Não sinto mais culpa nem remorso quando digo não.É o fundamental, acho.Não quero, não faço.
Tento todos os dias conseguir me lembrar e todas as coisas que tenho pra fazer. Sempre esqueço. Então desisti de marcar na agenda, porque não olho. Estou humilde o suficiente para dizer aos amigos: Pode me ligar no dia, pra me lembrar? Amigos de verdade entendem.
Ah! Amigos... Não devemos esquecer... Eles são o que temos de mais precioso. Me afastei de todos os meus amigos quando fui embora. Ninguém escapou. Agora busco por eles, um a um, e acabei encontrando pessoas que não se viam há muito tempo, e estamos todos em contato permanente. Não deixo passar um dia sem conversar com pelo menos um amigo. Afinal, quem tem ombro também chora...
E amanhã? É... parei de me preocupar com amanhã também. Se começo a pensar obcessivamente em Deus e a origem dos seres, mudo logo meu assunto pra chocolate, sexo, ou arrumo uma coisa bem trabalhosa pra fazer. Tenho lidado com a depressão como se fosse uma criança levada. A gente vai tentando distraí-la, e, quando vê, já dormiu... (muitas vezes a gente dorme primeiro, mas depois de um tempo acerta o ritmo). E vou seguindo assim. Dia após dia, sem contabilizar os segundos. Chá, líquidos, alimentação leve, exercício, cachorro, plantas. Tudo o que puder descarregar meu organismo sobrecarregado de melancolia.
A vida tem pressa, Camus. E nós estamos nos enfraquecendo onde devíamos crescer e superar. Deixa eu dizer melhor. Nós estamos crescendo e nos superando tanto que não conseguimos perceber. Na hora em que você conseguir respirar de novo, com a cabeça erguida, vai olhar pra trás e dizer: nossa! como essa doença tão cruel pôde me lapidar tanto como pessoa, indivíduo, consciênia? Como pode tanta dor trazer tanto bem?
Mas isso é pra depois da tempestade. Porque ela vai passar. Já passou. Está só um vento forte ainda, como um rastro. Nem olhe mais. Não precisa. Você sabe que consegui mais uma vez. Agora tem que ficar com os radares espertos. E tratar de evacuar a área ao menor sinal de chuva.
Saia pra ir ao cinema com um amigo de infância. Jogue bola na chuva. Nade num rio. Coma algodão doce. Sente na calçada. Ria muito de piadas sem graça e muito mal contadas. Ria de segurar a barriga pra parar de doer. A piada é só uma desculpa. Se divirta. Não faça dos seus dias uma obrigação, porque não somos obrigados a viver. Transforme seu trabalho num divertimento. Sempre tem uma maneira de melhorar.
É isso que tenho chamado de rituais. Porque eu entrei num ônibus em 1992 e acordei 20 anos depois, completamente diferente do que me lembro de mim. "Não me reconheço mais olhando as fotos do passado. O habitante do meu corpo, esse estranho dublê de retratos..."É assim que tenho mantido o controle. Não sou exemplo. Apenas relato.E antes que eu me esqueça, mais uma coisinha. Pare de refletir. Por enquanto. Temporariamente ceda à tentação de ser comum, mais um na multidão. Quando estiver pronto, o raciocínio te domina de novo. É certo.


sexta-feira, 1 de junho de 2012

Poema das horas



Ah! Sim!
As horas! Tantas...
Horas são fardos
Que minha garganta
Não sabe esperar

Segundo após segundo sofro
A agonia da morte
Em células minhas
Que me deixo pilhar

É como respirar embaixo d´água
Olhar os minutos a passar
E nada desta enfadonha
vida terminar

e de repente sinto um
brisa passando
sorvo o ar, preencho meus pulmões
arfando
olho o relógio e
recomeço a contar.



*Acho que escrevi em 2007

quarta-feira, 30 de maio de 2012

A vaca, o monge e o penhasco

Era uma vez... Não, essa história não começa bem assim.Conta uma parábola oriental que um mestre e um discípulo peregrinavam pelo interior de um país bem pobre, numa vizinhança erma, com vegetação muito hostil, para semear a palavra de seu Deus, quando avistaram uma humilde choupana onde sobrevivia um casal e sua numerosa família. 
Digo que sobreviviam porque todos eram alimentados exclusivamente pela produção de leite de uma única vaca. O alimento era usado no consumo doméstico, sendo todo o excedente trocado por grãos na aldeia mais próxima, que ficava a cerca de cinco horas de caminhada.
Apesar da evidente pobreza, o mestre e o discípulo foram gentilmente acolhidos pela família por três dias. 
Algumas horas depois de partirem, quando o sol já se deitava na estrada, o mestre disse ao discípulo que voltasse ao local, às escondidas, e empurrasse a vaca do alto do penhasco onde ela costumava pastar. 
O discípulo, assustado, argumentou que isso seria como a morte para aquelas pessoas, que dependiam do animal para seu sustento. Mesmo assim, o mestre insistiu: 
“Você tem razão. Jogue a vaca do penhasco”.
Depois de debater longamente com o mestre, mesmo sentindo uma enorme culpa, o rapaz se conformou e foi até a beira do penhasco, de onde empurrou a vaca. 
Anos mais tarde, quando os dois passavam pelas proximidades de onde ficava o casebre, o discípulo pensou em visitar a família e pedir perdão por ter tão covardemente assassinado a vaca, mas nada disse ao mestre.
Ao chegar à beira da estrada, ele não avistou a choupana, mas uma construção nova e confortável. As pessoas trabalhavam limpas e bem vestidas, num ambiente de progresso evidente. 
O rapaz se aproximou então e perguntou se saberiam informar onde estavam os moradores da pobre casinha que ali havia. Um dos homens respondeu: “Somos nós“.
Sem nada compreender, o discípulo insistiu: “Não, refiro-me àquelas pessoas pobres que aqui viviam”.
“Somos nós”, respondeu o homem novamente.
Diante da profunda e positiva transformação, o discípulo perguntou o que havia acontecido.
“Há muitos anos atrás, numa noite terrível, um acidente matou nossa única vaca e ficamos sem nossa fonte de sustento. Não tivemos alternativa além de buscar trabalho. Com isso, descobrimos nossas próprias capacidades e as potencializamos. O que você vê é o resultado daquela fatalidade”, ponderou o homem.

Moral da história:
O mestre pode saber além da percepção do que está à sua frente enquanto o discípulo nada pode ver ainda, a não ser o que está evidente. O rapaz viu apenas o infortúnio imediato, que era transitório. 

Ou seja:
Se você anda acompanhado de pessoas muito, muito sábias, pode se pegar tomando atitudes inexplicáveis e acabar obtendo resultados surpreendentes.
Se você e sua família dependem exclusivamente de uma fonte de sustento, está na hora de começar a pensar em diversificar.
Se você é uma vaca, nunca paste na beira de um penhasco.



P.S. Conclusão do meu guru espiritual: O discípulo aprendeu, o mestre ensinou, a família prosperou. Todo mundo se deu bem, menos a vaca, que era a única que produzia alguma coisa. 

*Livre adaptação de Simone Schettino